16 de maio de 2016

No muro alto

Sentado num muro de pedra, vejo a Primavera do alto.
Um tempo em que o amor e as chuvas dançam juntos
Ao sabor dos ventos e do coração em sobressalto.
Aguardando a vinda dum destino vão, aqui sentado,
Enfrento a atracção pela dor inevitável de querer alguém.
Embora a solidão me abrace de forma tão confortável,
Sinto-me afundar cada vez mais no abraço de ninguém.

Quanto dói, oh, nem imagina este papel inocente.
Todo este sol a iluminar o horizonte vasto
E só vejo amargura nesta existência sensiente.
Observo beleza, esperança ao ver felicidade alheia,
Mas a minha motivação está a perder a "tinta".
Cada pedaço de esperança se torna desespero
Pois parece ser sempre prematuramente extinta.

Deste muro alto imagino o mundo sem mim,
Realmente pouca diferença lhe faria.
Então por que tenho de me sentir assim ?
O sucesso é conquistado, não está escrito.
A existência é a magia, os seus efeitos uma realidade.
Sofrerei, bem sei, toda a magia tem o seu segredo,
Mas sofrerei sabendo que vivo, e isso vale por toda a eternidade.

[ A desilusão reina numa mente perturbada por todos os insucessos que tem de enfrentar durante a sua vida. É difícil encontrar motivação para continuar a tentar, mais difícil ainda encontrar a tão cobiçada "felicidade" de que tanto falam. O tempo urge e não nos sentimos realizados, orgulhosos do progresso ou com vontade de aspirar a mais e maior; uma tragédia perfeita, pensamos. E a verdade é que irão sempre existir insucessos a todos os níveis, a alma irá quebrar, a vontade irá esmorecer, a solidão irá reinar no nosso coração pois não nos sentimos compreendidos e até a ajuda que chegar até nós parecerá distante e fria. Mas, no fim, só existe uma garantia: se não tentarmos, nada irá acontecer. Demore o tempo que demorar até nos sentirmos melhor, não podemos deixar de insistir, não podemos desistir. E por muito que culpemos o que nos rodeia pela nossa condição, o isolamento não é solução. Valorizemos os nossos actos que têm impacto nos outros, mesmo que eles não o façam. Aquele sorriso espontâneo valerá sempre a pena ver. Há amor escondido em todos os gestos. Não é preciso querer o mundo, podemos apenas querer ser melhores que ontem e apreciar o que o mundo tem para oferecer hoje. Alguém saberá ver isso e corresponder. Não esgotem a vossa "tinta"...! ]

19 de fevereiro de 2016

Um olhar anónimo também sente

No rescaldo da carência,
Da intimidade e indecência
Contemplo o vazio cheio
Do vaguear do olhar.
O corpo pede, subtilmente,
O colidir de desejos nus
Entre resquícios de luz
E o calor de fim de tarde.
Anónimos se acodem
Sem buscar amor,
Não mais que uns lábios
Fisicamente sãos e sábios.
Amor um estranho conceito  ?
Improvável talvez,
Dele não existe escassez,
Até em meros estranhos.
Pois com os meus olhos fixados
Nos teus olhos vivos e calados
Eu senti o coração ferver.
Até um olhar anónimo sente.

[ É difícil acreditar por vezes que nos invade o pensamento de que não somos amados; de que a lembrança dos outros para connosco é não mais que algo arbitrário, ligado ao desejo, ligado à necessidade alheia de querer algo em troca. A verdade é que talvez não estejamos a ver tudo o que o nosso olhar nos diz, ou mais, o que o olhar dos outros nos diz. Existem olhares intensos, cheios de paixão interior que nos tocam, mesmo quando a pessoa é estranha, quando a alma ainda não nos tocou. Um romance não tem de começar sempre com um ramo de rosas e um passeio ao luar, da mesma forma que um encontro físico e fugaz não tem garantidamente um fim abrupto. Um romance começa quando dois olhares se cruzam verdadeiramente e expõem o que realmente somos. ]

31 de dezembro de 2015

Alma de vidro

Um momento de silêncio pela alma.
A alma que pegou nos destroços mentais dum corpo inerte e os levantou, em uníssono, numa manhã de sol cinzento. Nada mais recordo a não ser o azul sem tom dos últimos tempos. Noto um cansaço que vem de dentro, independente do corpo. Um cansaço de alma, que tanto se esforça sozinha.
Tenho vindo a descobrir as vantagens e desvantagens de encontrar a identidade própria de mim. Não ter receio de saber o que gosto, o que anseio fazer, como sou sozinho, como sou rodeado de semelhantes e de opostos. Ter um rumo, um caminho que escolhi, um caminho com um pavimento previsível e esquinas por dobrar e descobrir. A desvantagem de se pisar sedimento familiar, é o sabor acre de vermos a progressão constantemente adiada pelo que nos rodeia nesse momento. Tanto que temos de nós próprios à espera de ir descobrir o resto do mundo, preso na noção de finalmente ter tempo para explorar a nossa vontade e não ter tempo para ter esse tempo.
Por vezes, gostaríamos de fugir a nós próprios, ainda que temporariamente, para que essa liberdade condicionada não nos corroesse o interior. Encontrar espelhos da alma que nos dessem respostas diferentes, destinos diferentes. Algumas pessoas estão envoltas em tal tumulto interior que acabam por absorver aquilo que mais odeiam nos outros e propagam-no sem a mínima consciência disso. Uma vingança involuntária e agridoce, chame-se.
Gostaria de ser mais egoísta, o suficiente para não desistir de mim. É algo que nunca diria noutro contexto ou de ânimo leve. Mesmo quando penso em mim, esse pensamento envolve todos os outros que me rodeiam. Até aqueles que se aproveitam disso e não existe ressentimento. É devastador para a alma não sentir empatia ou compreensão. O tempo passa mas ela está estacada, exausta, trémula. Não quebra, mas como poderia quebrar algo que se distanciou de si ? Como pode ela recuperar a força sem oportunidades, sem esse egoísmo sedento apenas de melhorar o que é seu por direito ?
Valorizo e muito a individualidade, o gosto pelo que se é e a confiança daquilo que se faz como uma mensagem de rodapé mental: "Isto sou eu, e gosto de cada segundo disso". A verdade, é que nem sempre poderemos fazer isso. Nem sempre se pode fugir ao que não se gosta, ao necessário para prosseguir, aos hiatos e soluços que servem para aprender a encontrar o que realmente se quer. Mesmo depois de se achar que só existe um caminho e uma vontade, todas as ramificações desse caminho terão um propósito.
Ninguém deveria ter de se deixar abraçar pelos braços da impotência e ver a sua identidade adormecida. Mas tudo tem um fim, e isso inclui os percalços. Mais cedo ou mais tarde, iremos fazer o que grita a nossa identidade, seja ela aquilo que se desejaria ou não. Essa aceitação é chave. É a chave que vai abrir o cadeado das correntes que cansam a alma. E é por isso que não podem existir espelhos da alma; a nossa verdadeira alma é de vidro. Tem tanto de delicado como de impenetrável, com uma característica fundamental: quem quiser, poderá ver a sua essência e beleza, e basta nós não desistirmos para ela nunca se perder, qual pilar de determinação.
O silêncio terminou. Chegou a altura de voltar a sorrir.