27 de julho de 2012

Um vulto de ninguém

Começa a chover com a janela aberta
Para o mar alto da personalidade.
Ondulam o sombrio e a tempestade
De uma alma desancorada e deserta.

Esqueci-me de mim, algures pelo trilho,
Parti o espelho da alma suave e cristalino.
Agora sou um reflexo negro de um menino
Que se perdeu na contemplação da água sem brilho.

Vejo a minha vista como se fosse cega e muda,
Vazia como o vulto de uma pessoa carrancuda,
Vidrada no silêncio de uma sala desnuda.

Quem sou já me procurou e não encontrou ninguém,
Quem fui encara-me cada vez mais com desdém,
Quem quero ser...não é um vulto, mas sim alguém.

[ Sempre a caminhar atrás da própria sombra e não além dela. Sempre a pensar no que nos faltou e no que se seguirá. Quando é que deixa de haver um "quando" e somos nós agora ? Quando é que deixa de haver um "porquê" para não procurar vazios ? Quando é que deixa de existir um "onde" e fazemos nós o caminho ? Quando é que deixam de persistir perguntas ? Nunca...mas as respostas também não têm de existir fora de nós. As respostas somos nós, e a vida nunca irá acabar numa pergunta. Irá sempre, no entanto, começar com aquelas que nos propormos a ser a resposta. ]

3 de maio de 2012

Tormento leve e jubilo infernal

(Tão) simples como viver,
(Tão) complicado quanto o fazer.
Atormentados pelo simples,
O complicado, felizes por receber.
Onde tudo é vendido sem ter valor
E o trair é a maior amostra de amor,
O tempo só corre para quem anda,
Pois o mais forte é o que dos outros tem pavor.
Condenamos morte mas negamos vida,
Queremos sarar onde não há ferida
E porquê? Não fazendo sentido algum,
Como temos uma forma de pensar tão nítida?
Não sei nem sabem nem é suposto,
Lógica no viver, por vezes é um encosto,
Uma desculpa para tentar explicar tudo
Quando viver é apenas uma face do rosto.
Cuidemos enquanto existe
Esta oportunidade que tanto persiste,
(Tão) simples e complicada, esta vida,
(Tão) difícil e facilmente resiste.

[ Tudo é efémero, até uma forma de pensar. Num dia podemos defender algo afincadamente e noutro dia desdenhar completamente o mesmo. Por vezes abraçamos o sofrimento e noutras vezes rejeitamos a jubilo. A existência não foi, não é, nem nunca será algo simples ou complicado. É algo que transcende tudo isso. Temos muito tempo para viver, pouco tempo para existir e ainda menos tempo para deixarmos a nossa marca. E que tal...não pensarmos por uns momentos ? Gritar, saltar, correr...libertar. Não interessa onde, quando, nem porquê. "Just do it." ]

22 de abril de 2012

Soldadinho de metal

Tenho um soldadinho de metal
Com uma armadura e um punhal
Lutando contra tudo que lhe faça mal,
Ou assim lhe convence a sua moral.

Luta sem parar nem desistir,
Mesmo quando a batalha deixou de existir.
O seu pobre coração deixou-se dormir,
A sua inocência, há muito que a viu partir.

Somos armaduras portadoras de um coração,
Defendemos-nos demais de sentimentos em vão,
E magoamos aqueles que nos estendem a mão.

A melhor defesa não é isolar o sentimento.
É despir a armadura para perder o tormento
De sentir, e poder viver o simples momento.

[ Podemos sofrer muito, podemos ser privilegiados, mas não podemos fechar as nossas portas ao mundo, é o mesmo que nos entregarmos de graça à solidão. Demore o tempo que demorar, temos de deixar os outros entrar para nos ajudar a sarar as feridas. As cicatrizes ficarão lá para sempre, mas é suposto. Temos apenas que seguir em frente. ]